quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Soucit

Estou lendo um livro muito bom, que me foi dado por alguém muito especial!
Recentemente cheguei num capítulo interessante, no qual se explicou uma coisa, que seria bom que todos soubessem:

     Todas as línguas derivadas do Latim formam a palavra "compaixão" com o prefixo com e a raiz passio, que originariamente significa "sofrimento". Em outras línguas, por exemplo em Tcheco, em Polonês, em Alemão, em Sueco, essa palavra se traduz por um substantivo formado com um prefixo equivalente seguido da palavra "sentimento" (em Tcheco: soucit; em Polonês: wspol-czucie; em Alemão:mitgefühl; em Sueco: med-känsla).
     Nas línguas drivadas do latim, a palavra compaixão significa que não se pode olhar o sofrimento do próximo com o coração frio, em outras palavras: sentimos simpatia por quem sofre. Uma outra palavra que tem mais ou menos o mesmo significado: piedade( em inglês: pity; em italiano: pietá, etc.), sugere uma espécie de indulgência em relação ao ser que sofre. Ter piedade de uma mulher significa sentir-se mais favorecido do que ela, é inclinar-se, abaixar-se até ela.
     É por isso que a palavra compaixão inspira, em geral, desconfiança: designa um sentimento considerado de segunda ordem que não tem muito a ver com o amor. Amar alguém por compaixão não é amar de verdade.
     Nas línguas que formam a palavra compaixão não com a raiz "passio: sofrimento", mas com o substantivo "sentimento", a palavra é empregada mais ou menos no mesmo sentido, mas dificilmente se pode dizer que ela designa um sentimento mau ou medíocre. A força secreta de sua etimologia banha a palavra com uma outra luz e lhe dá um sentido mais amplo: ter compaixão (co-sentimento) é poder viver com alguém sua infelicidade, mas é também sentir com esse alguém qualquer outra emoção: alegria, angústia, felicidade, dor. Essa compaixão(no sentido de soucit, wspolczucie, med-känsla) designa, portanto, a mais alta capacidade de imaginação afetiva - a arte da telepatia das emoções. Na hierarquia dos sentimentos, é o sentimento supremo.
    
                                              - Trecho extraído do livro "A insustentável leveza do ser", de Milan Kundera.
                                              




3 comentários:

  1. "A força secreta de sua etimologia banha a palavra com uma outra luz e lhe dá um sentido mais amplo: ter compaixão (co-sentimento) é poder viver com alguém sua infelicidade, mas é também sentir com esse alguém qualquer outra emoção: alegria, angústia, felicidade, dor."
    É isso. É isso!
    (Agora quero mais ainda ler esse livro.)

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  2. Muito interessante esse trecho! Mesmo!! =)

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